Entre a memória e o futuro: povo Chiquitano luta para manter viva sua cultura ancestral em Mato Grosso

Karolina Silva •
Língua Bes+ro, danças, artesanato, vestimentas e conhecimentos tradicionais formam um patrimônio que resiste ao apagamento histórico e desafia o poder público a ampliar as ações de preservação em Vila Bela da Santíssima Trindade.

Em Vila Bela da Santíssima Trindade, município que foi a primeira capital de Mato Grosso, a história também é contada por meio de sons, danças, vestimentas, objetos feitos à mão e conhecimentos transmitidos de geração em geração. Entre as manifestações que compõem essa diversidade está a cultura do povo indígena Chiquitano, cuja presença na região de fronteira entre Brasil e Bolívia representa uma herança histórica que continua viva, apesar dos desafios para preservar suas tradições.

Mais do que manifestações apresentadas em eventos culturais, esses elementos representam a identidade de uma comunidade que busca reconhecimento e espaço para transmitir seus saberes às novas gerações. A língua Bes+ro, o tipoy, as músicas, os instrumentos, as danças, o artesanato e as práticas tradicionais de cuidado integram um patrimônio cultural que, para os Chiquitanos, está diretamente relacionado à memória e ao sentimento de pertencimento.

O desafio, entretanto, não está apenas em manter essas expressões presentes nas celebrações. Está em garantir que elas continuem fazendo parte da vida cotidiana, sejam conhecidas pelos mais jovens e recebam condições adequadas de preservação.


Uma língua que carrega a memória de um povo

Um dos aspectos mais importantes dessa herança é a língua Chiquitana, conhecida como Bes+ro ou Bésiro. O idioma representa uma parte fundamental da identidade do povo e carrega conhecimentos, histórias e formas próprias de compreender o mundo.

A transmissão da língua, porém, foi afetada por processos históricos de colonização, imposição de idiomas dominantes e desvalorização das línguas indígenas. Em pesquisa apresentada na Revista Taka’a, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), pesquisadoras analisaram a situação sociolinguística de comunidades Chiquitanas e apontaram que o Bésiro se encontra em situação de maior vulnerabilidade no lado brasileiro da fronteira, com transmissão entre gerações fragilizada e pressão do português.

O estudo também registra iniciativas comunitárias de revitalização, incluindo o uso da língua em contextos domésticos e rituais, além de esforços de documentação e ações em parceria com instituições de ensino. O cenário mostra que preservar um idioma exige mais do que registrar palavras: é necessário criar condições para que ele seja ouvido, aprendido e utilizado pelas novas gerações.

A discussão também chegou ao ambiente acadêmico. Trabalhos publicados pela Unemat abordam a necessidade de revitalizar o Bésiro e ampliar sua presença em contextos educacionais, com materiais como gramáticas e dicionários. A universidade, portanto, aparece como espaço de pesquisa e debate sobre uma questão que envolve diretamente a continuidade cultural do povo Chiquitano.


Tipoy, música e dança mantêm tradições em movimento

A cultura Chiquitana também se expressa por meio das vestimentas tradicionais. O tipoy, roupa típica utilizada em manifestações culturais, é um dos símbolos dessa identidade. As peças e os acessórios ajudam a preservar referências ancestrais e aparecem nas apresentações realizadas pela comunidade.

Foto de arquivo pessoal da autora

Na música, instrumentos como a caixa, o bumbo e a flauta, também identificada em registros como pífano, acompanham celebrações e manifestações tradicionais. Parte desses instrumentos é confeccionada artesanalmente, demonstrando que a preservação cultural também envolve técnicas de produção e conhecimentos transmitidos entre pessoas da própria comunidade.

Foto de arquivo pessoal da autora

Entre as manifestações descritas em pesquisas sobre o povo está a Chovena de roda, dança em que os participantes formam círculos e realizam passos acompanhados pelos instrumentos tradicionais. O carnavalito também aparece entre as celebrações, reunindo música, improvisação e participação coletiva.

Foto de arquivo pessoal da autora

Em Vila Bela, grupos de dança com a participação de crianças e pessoas idosas representam uma forma de aproximar diferentes gerações. A presença dos mais jovens nas apresentações é especialmente importante porque permite que eles conheçam as tradições não apenas por fotografias ou relatos, mas pela experiência de participar delas.

Foto de arquivo pessoal da autora

A dança, nesse contexto, ultrapassa o entretenimento. É uma maneira de reafirmar a identidade, compartilhar a memória e manter vivas práticas que atravessaram diferentes períodos históricos.

Artesanato e conhecimentos tradicionais também são patrimônio

Outro componente importante é o artesanato. Cestos, abanadores e peças de madeira estão entre os trabalhos registrados em levantamentos sobre a cultura Chiquitana em Vila Bela. A produção envolve técnicas manuais, conhecimento sobre materiais e formas de criação que fazem parte da herança cultural da comunidade.

Foto de arquivo pessoal da autora

As oficinas e atividades coletivas de artesanato também podem contribuir para a transmissão desses conhecimentos e para a valorização do trabalho de artesãos e artesãs. Quando essas práticas encontram espaços de exposição e comercialização, podem ainda representar oportunidades de geração de renda, desde que conduzidas com respeito à identidade e às decisões da própria comunidade.

Foto de arquivo pessoal da autora

Os saberes tradicionais de cuidado e o curandeirismo também integram esse patrimônio. São conhecimentos relacionados ao uso de recursos naturais e a práticas transmitidas entre gerações, cuja importância cultural precisa ser reconhecida sem confundi-los com a prestação de serviços médicos.

Foto de arquivo pessoal da autora

A alimentação e as celebrações completam esse conjunto de expressões. A chicha e o bolo de arroz, por exemplo, aparecem no levantamento acadêmico como referências da culinária associada à comunidade. São práticas que demonstram como a cultura também se preserva nos alimentos, nos encontros e nos costumes compartilhados.


Pesquisa e educação ajudam a abrir caminhos para a preservação

A valorização da cultura Chiquitana também passa pelo trabalho de pesquisadores, educadores e instituições de ensino. Em 2024, a pesquisa Cartografia dos Bens Culturais do Povo Chiquitano, desenvolvida na Universidade do Estado de Mato Grosso, reuniu informações sobre manifestações culturais, patrimônio imaterial e desafios enfrentados pela comunidade em Vila Bela da Santíssima Trindade.

Foto de arquivo pessoal da autora

O levantamento identificou a importância da língua, das vestimentas, da música, da dança, do artesanato e dos conhecimentos tradicionais para a afirmação da identidade Chiquitana. Também destacou o papel da Associação Étnica Cultural ChikBela e do Sistema Cacicado Antônio Eudes Leite na organização comunitária e na valorização cultural.

Outras iniciativas acadêmicas ampliam esse debate. Em 2025, a Unemat publicou estudos sobre a situação sociolinguística do Bésiro e sobre políticas linguísticas voltadas à revitalização de idiomas em regiões de fronteira. Já em 2026, uma pesquisa de mestrado registrada pela universidade abordou o ensino do trançado Chiquitano com brotos de indaiá e acuri na Escola Estadual Indígena José Turíbio, na aldeia Vila Nova Barbecho, em Porto Esperidião. O trabalho destaca a transmissão de técnicas tradicionais aos estudantes e a produção de materiais pedagógicos.

Embora essa experiência esteja localizada em outro município, ela demonstra como a educação escolar indígena pode funcionar como espaço de continuidade dos conhecimentos ancestrais.

No âmbito estadual, a Secretaria de Estado de Educação também disponibilizou, em 2025, a coleção de materiais didáticos Aprender a Ler, que inclui o título Chiquitano: Histórias de Animais. A iniciativa integra ações de educação escolar indígena e representa uma forma de ampliar a presença de conteúdos relacionados aos povos originários no ambiente educacional. O material, entretanto, não deve ser confundido com uma política específica de ensino da língua Bes+ro: a necessidade de fortalecer a transmissão do idioma continua sendo apontada pelas pesquisas.

Preservar exige mais do que celebrar

A existência de manifestações culturais, pesquisas acadêmicas e materiais educativos representa avanços importantes, mas também evidencia a dimensão do trabalho que ainda precisa ser realizado. A preservação de um patrimônio imaterial depende de continuidade, participação comunitária, formação, documentação e políticas públicas construídas com os próprios detentores desses conhecimentos.

Em Vila Bela, a atuação das organizações Chiquitanas é parte fundamental desse processo. A autodeclaração indígena, a organização coletiva e as iniciativas de valorização cultural demonstram que a comunidade não espera apenas pelo reconhecimento externo: ela própria trabalha para manter sua identidade e reivindicar espaço.

O desafio para o poder público é transformar o reconhecimento da diversidade cultural em ações permanentes. Isso envolve apoiar iniciativas de transmissão da língua, valorizar os mestres dos saberes tradicionais, incentivar a produção cultural, ampliar materiais educativos e garantir que a história Chiquitana também esteja presente nos espaços de memória e nas políticas culturais.

A Constituição Federal, em seu artigo 216, reconhece como patrimônio cultural brasileiro os bens materiais e imateriais que fazem referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade. Essa proteção inclui formas de expressão, modos de criar, fazer e viver, além de conhecimentos e práticas culturais.

A legislação oferece uma base importante, mas sua existência, por si só, não garante que as tradições sejam preservadas. É necessário que o reconhecimento se transforme em oportunidades concretas para que a comunidade mantenha e transmita seu patrimônio.

A história de Vila Bela não pode ser compreendida sem a diversidade de povos que ajudaram a formar sua identidade. Nesse contexto, a cultura Chiquitana representa uma parte importante da memória de Mato Grosso e da história da região de fronteira.

Manter viva essa herança significa reconhecer que a cultura não pertence somente ao passado. Ela continua sendo construída por crianças, jovens, adultos e anciãos que preservam conhecimentos, ensinam tradições e reafirmam sua identidade. O futuro desse patrimônio depende, sobretudo, de que essas vozes tenham espaço, respeito e condições para continuar contando sua própria história.

foto de arquivo pessoal da autora

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