O padre Overland Moraes Costa, da Paróquia Cristo Rei, em Várzea Grande, defendeu que os cristãos pratiquem a caridade sem condicioná-la às escolhas políticas de outras pessoas. Em um trecho de homilia publicado nas redes sociais, o sacerdote afirmou que a generosidade perde o sentido quando alguém decide ajudar ou deixar de ajudar outra pessoa com base no voto dela.
“Se a sua caridade depende de como a pessoa a quem você vai ajudar, de como ela vota, isso não é caridade, isso é troca”, afirmou o padre.
A reflexão ganha destaque em meio a publicações de políticos, empresários e influenciadores nas redes sociais que defendem demissões, recusas de contratação e boicotes contra pessoas identificadas como apoiadoras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito em 2026. No entanto, o trecho da homilia não menciona diretamente essas publicações nem confirma que o sacerdote tenha feito a reflexão em resposta a elas.
Padre afirma que a caridade não deve depender do voto
Durante a homilia, Overland questionou a atitude de pessoas que deixam de ajudar alguém porque discordam de suas escolhas políticas. Para explicar seu argumento, ele comparou essa postura à possibilidade de Deus abandonar os fiéis por causa de suas decisões.
“Imagine se Deus fizesse isso conosco. Já que você escolheu isso, já que você escolheu assim, arque com as consequências, não conte mais comigo”, disse o sacerdote ao apresentar essa situação como exemplo.
O padre também afirmou que a intolerância pode mudar o comportamento de quem antes demonstrava generosidade. Segundo ele, o ressentimento pode endurecer o coração e afastar as pessoas dos princípios cristãos.
“E os cristãos lutam, se esforçam, colaboram com a graça, para que tenham um coração semelhante ao de Cristo”, declarou.
Reflexão ocorre em meio a campanhas de demissão e boicote
Após o segundo turno das eleições presidenciais de 2026, usuários das redes sociais publicaram mensagens para incentivar empresários a demitir trabalhadores por suas escolhas políticas e consumidores a evitar estabelecimentos associados a eleitores do PT.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que recebeu 530 denúncias de assédio eleitoral entre o fim da votação de domingo (25) e a tarde de terça-feira (27). Naquele balanço, o órgão contabilizou 2.467 denúncias em todo o ano, e os registros posteriores ao resultado representavam 21,4% do total.
Entre os conteúdos publicados, algumas pessoas defenderam explicitamente a demissão de funcionários identificados como petistas. Outras incentivaram consumidores a boicotar profissionais e estabelecimentos comerciais por causa de suas posições políticas.
O MPT alerta que ameaças de demissão, dispensas, recusas de contratação e outras retaliações motivadas pelas convicções políticas dos trabalhadores podem caracterizar assédio eleitoral. O órgão também reforça que os trabalhadores podem denunciar essas práticas mesmo após o encerramento das eleições.
Justiça arquivou procedimento contra o padre em 2023
Em maio de 2023, o juiz eleitoral Carlos José Rondon Luz, da 20ª Zona Eleitoral de Várzea Grande, arquivou uma notícia-crime relacionada a críticas que o padre Overland Moraes Costa teria feito a eleitores de Lula durante as eleições de 2022.
Segundo reportagens publicadas na época, uma denúncia anônima apontou manifestações do sacerdote nas redes sociais. O Ministério Público Eleitoral recomendou o arquivamento por entender que as declarações estavam protegidas pela liberdade de expressão. A Justiça Eleitoral acolheu o entendimento e encerrou o procedimento sem aplicar punições ao padre.
Como denunciar assédio eleitoral?
Trabalhadores que enfrentarem ameaças, perseguições, constrangimentos ou retaliações por suas escolhas políticas podem registrar uma denúncia no site do Ministério Público do Trabalho. O MPT-MT orienta os denunciantes a guardar provas, como capturas de tela de publicações, mensagens, áudios e informações sobre possíveis testemunhas. O órgão recebe denúncias mesmo após o encerramento das eleições e preserva a identidade do denunciante.
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