Homem mais velho do mundo é brasileiro e cientistas investigam segredo da longevidade no Nordeste

Karolina Silva •

O homem mais velho do mundo é brasileiro, nasceu no Ceará e viveu praticamente toda a vida no sertão nordestino. João Marinho Neto, nascido em 1912, alcançou os 114 anos e possui um recorde reconhecido pelo Guinness World Records. Sua história faz parte de um fenômeno que desperta a atenção de pesquisadores: o Brasil já registrou 196 supercentenários, pessoas que ultrapassaram os 110 anos com idade comprovada. O número coloca o país na segunda posição das Américas em quantidade de casos registrados, apesar das desigualdades sociais e das dificuldades de acesso à saúde. Agora, cientistas investigam como fatores genéticos, hábitos de vida e relações sociais podem explicar essa longevidade.

Cearense de 114 anos começou a trabalhar aos quatro anos

João Marinho Neto nasceu em 1912, no Ceará, e passou a vida no sertão, onde começou a trabalhar em fazendas ainda na infância, aos quatro anos.

Mesmo diante de condições de vida diferentes das encontradas em regiões com maior acesso à medicina, o cearense alcançou uma idade extremamente rara.

O Guinness World Records reconhece João como o homem mais velho do mundo e o nono homem mais longevo da história.

Entretanto, ele não representa um caso isolado no Brasil.

O país também registrou a trajetória de Francisca Celsa dos Santos, que nasceu em 1904, em Cascavel, no Ceará, e viveu até os 116 anos.

Francisca enfrentou um câncer diagnosticado aos 85 anos e chegou à idade avançada com poucas intervenções médicas, conforme os relatos apresentados pelos pesquisadores.

Cientistas da USP investigam genes que protegem contra doenças

A geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP), lidera o projeto DNA Longevo.

A iniciativa analisa características genéticas, moleculares e celulares de brasileiros que alcançaram idades excepcionais.

Segundo a pesquisadora, algumas pessoas possuem variantes genéticas que podem oferecer proteção contra doenças associadas ao envelhecimento.

“Os centenários e principalmente os supercentenários têm variantes genéticas protetoras”, explicou.

A equipe busca identificar essas características e compreender como elas atuam no organismo.

Entre as possibilidades investigadas está a presença de determinados tipos de células de defesa, incluindo células T citotóxicas, identificadas em idosos estudados pelo projeto.

Essas células podem contribuir para o controle de infecções e de células malignas em idades avançadas.

Entretanto, os pesquisadores ainda precisam compreender melhor os mecanismos envolvidos.

Nordeste concentra casos que desafiam explicações tradicionais

Um dos aspectos que mais chamam a atenção dos cientistas é a presença de pessoas extremamente longevas em regiões com dificuldades de acesso aos serviços de saúde.

O Nordeste aparece entre as áreas brasileiras com concentração de idosos longevos, ao lado do Sudeste.

No entanto, as duas regiões apresentam realidades socioeconômicas diferentes.

Enquanto o Sudeste concentra uma ampla rede de atendimento médico, o Nordeste enfrenta maiores barreiras de acesso à saúde e registra menor expectativa de vida ao nascer.

Essa diferença levou pesquisadores a investigar por que determinadas pessoas conseguem ultrapassar os 100 anos mesmo vivendo em condições consideradas desfavoráveis.

Mayana Zatz também estuda a possibilidade de que a diversidade genética da população brasileira contribua para a longevidade.

A miscigenação entre populações indígenas, africanas, europeias e asiáticas pode ter produzido combinações genéticas relevantes para a resistência biológica.

Por enquanto, essa relação permanece como uma hipótese científica em investigação.

Alimentação, exercícios e convivência também influenciam a longevidade

Embora a genética tenha grande importância, especialistas destacam que viver muitos anos depende de diferentes fatores.

A prática regular de exercícios físicos, uma alimentação equilibrada e a manutenção de atividades intelectuais podem contribuir para um envelhecimento mais saudável.

Além disso, vínculos familiares, relações sociais e a capacidade de adaptação às mudanças aparecem com frequência nas histórias de idosos longevos.

A médica geriatra Maísa Aguiar explica que pessoas com a mesma idade podem apresentar condições físicas e cognitivas bastante diferentes.

“Dois pacientes de 90 anos podem ter organismos que parecem pertencer a décadas diferentes”, afirmou.

Segundo a especialista, não existe uma fórmula única que garanta a chegada aos 100 anos.

A longevidade extrema envolve uma combinação de características genéticas, ambientais, comportamentais e sociais.

Brasil enfrenta desafio de garantir qualidade de vida aos idosos

Apesar dos registros de supercentenários, a expectativa de vida brasileira permanece abaixo dos 80 anos.

Os dados apresentados apontam uma média de 76,6 anos no país, enquanto o Canadá registra 82,6 anos e o Chile, 81,2 anos.

Diante do envelhecimento da população, especialistas defendem que o objetivo da medicina não deve ser apenas prolongar a vida, mas também preservar a autonomia e a saúde dos idosos.

A gerontóloga Valéria Lins, formada pela USP, destaca a importância de diferenciar o tempo total de vida do período vivido com qualidade.

“Em 2010, falávamos sobretudo de lifespan, que é o tempo de vida. Hoje sabemos que isso não basta”, explicou.

A especialista ressalta que preservar a capacidade de realizar atividades diárias, manter a cognição e participar da sociedade são aspectos fundamentais do envelhecimento saudável.

Enquanto isso, o projeto DNA Longevo continua analisando brasileiros centenários e supercentenários para identificar características que possam ajudar a medicina a compreender melhor os mecanismos do envelhecimento.

Curtiu? Compartilhe

Ajuda a espalhar a notícia — manda no grupo.

Institucional