Dólar dispara após vitória de Lula e Banco Central pode interromper queda dos juros

Fabíola Maria Costa Silva •

A disparada do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou as expectativas do mercado financeiro sobre os juros no Brasil. Com a moeda americana acumulando alta de 9% na última semana e encerrando o período cotada a R$ 5,44, economistas passaram a apostar que o Banco Central manterá a taxa Selic em 13,75% ao ano. Antes do segundo turno das eleições, a expectativa predominante era de uma redução de 0,25 ponto percentual. O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciará sua decisão nesta quarta-feira (4), em meio às preocupações com a inflação, as contas públicas e os rumos da política econômica do próximo governo.

Vitória de Lula muda expectativas do mercado financeiro

A mudança nas projeções ocorreu após a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial de outubro.

Antes do resultado, parte significativa dos investidores trabalhava com a possibilidade de vitória do candidato do PL.

Com a confirmação da reeleição do petista, o mercado passou a reavaliar as perspectivas para a economia brasileira em 2027.

Entre as principais preocupações estão a condução das contas públicas, a possibilidade de aumento dos gastos governamentais e a ausência de definições sobre eventuais medidas de ajuste fiscal.

Entretanto, a alta do dólar também reflete fatores internacionais, incluindo mudanças nas condições financeiras globais e incertezas relacionadas ao conflito no Oriente Médio.

A valorização da moeda americana preocupa porque pode aumentar os preços de produtos importados, combustíveis, equipamentos e matérias-primas utilizados pela indústria brasileira.

Banco Central pode manter Selic em 13,75% ao ano

A taxa Selic está atualmente em 13,75% ao ano, após cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual desde março.

Até recentemente, economistas esperavam que o Banco Central continuasse reduzindo os juros diante dos sinais de desaceleração da atividade econômica.

Entretanto, a valorização do dólar e o aumento das expectativas de inflação mudaram esse cenário.

Na última sexta-feira, os contratos de opções digitais do Copom negociados na B3 indicavam 72% de probabilidade implícita de manutenção da Selic.

Já a possibilidade de redução de 0,25 ponto percentual aparecia com 26%, segundo levantamento do economista-chefe da Quantitas Asset, Ivo Chermont.

Esses percentuais representam a precificação dos contratos financeiros, não uma previsão oficial do Banco Central.

Chermont também revisou sua expectativa e passou a projetar a manutenção da taxa em 13,75%.

Inflação acima da meta preocupa economistas

Outro fator que influencia a decisão do Copom é a inflação brasileira.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,58% nos 12 meses encerrados em setembro.

O resultado supera o limite superior de 4,5% da faixa de tolerância da meta de inflação, cujo centro é de 3%.

O Banco Central utiliza a Selic como principal instrumento para controlar a alta dos preços.

Quando mantém os juros elevados, a autoridade monetária busca reduzir o consumo financiado, conter a demanda e diminuir as pressões inflacionárias.

Por outro lado, taxas elevadas também encarecem empréstimos e financiamentos, afetando famílias e empresas.

Na última pesquisa Focus divulgada antes do resultado eleitoral, os economistas projetavam inflação de 5,19% para 2026, 4,34% para 2027 e 3,75% para 2028.

As próximas estimativas poderão mostrar como os agentes financeiros reagiram ao resultado das eleições.

Projeções apontam dólar mais caro e inflação maior em 2027

A consultoria Buysidebrazil revisou suas projeções para o próximo ano após a valorização do dólar.

A estimativa para a inflação de 2027 passou de 3,9% para 4,7%.

Além disso, a previsão para a cotação da moeda americana subiu de R$ 4,90 para R$ 5,40 no encerramento de 2026 e de 2027.

Em relatório, a consultoria avaliou que o aumento das pressões inflacionárias e o risco de deterioração das expectativas podem levar o Banco Central a interromper temporariamente o ciclo de redução dos juros.

O Banco Pine também passou a considerar uma pausa na reunião de novembro.

Segundo o economista-chefe da instituição, Cristiano Oliveira, a incerteza sobre a política fiscal e os possíveis efeitos do fenômeno El Niño sobre os preços em 2027 justificam uma postura mais cautelosa.

Guerra no Oriente Médio e petróleo aumentam incertezas

Além do cenário político brasileiro, fatores internacionais influenciam as decisões do Banco Central.

O conflito envolvendo o Irã elevou as preocupações com o fornecimento e os preços internacionais do petróleo.

Ao mesmo tempo, o aperto das condições financeiras em economias desenvolvidas pode aumentar a pressão sobre moedas de países emergentes, incluindo o real.

O Itaú Unibanco avalia que o ambiente internacional se tornou mais desfavorável desde a última reunião do Copom, realizada em setembro.

A instituição também considera que as expectativas de inflação podem se afastar ainda mais da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.

Por isso, o banco passou a esperar uma decisão unânime pela interrupção temporária dos cortes da Selic.

Juros elevados afetam consumo, crédito e investimentos

A decisão do Banco Central terá consequências diretas para a economia brasileira.

Caso a Selic permaneça em 13,75%, empréstimos pessoais, financiamentos imobiliários e operações de crédito para empresas poderão continuar enfrentando custos elevados.

O cenário também pode dificultar investimentos produtivos e limitar a recuperação do consumo.

Por outro lado, a manutenção dos juros busca evitar que a valorização do dólar e o aumento das expectativas de inflação provoquem uma alta mais persistente dos preços.

Para os investidores, a decisão poderá influenciar o comportamento da Bolsa de Valores, dos títulos públicos e do mercado de câmbio.

Entretanto, uma pausa nos cortes não significa necessariamente que o Banco Central encerrará o ciclo de redução dos juros.

Segundo Cristiano Oliveira, do Banco Pine, as próximas decisões dependerão da evolução da inflação, da atividade econômica e dos demais fatores que influenciam as projeções da autoridade monetária.

O Copom divulgará sua decisão nesta quarta-feira (4), quando o mercado conhecerá a primeira resposta da política monetária ao cenário econômico formado após as eleições presidenciais.

Curtiu? Compartilhe

Ajuda a espalhar a notícia — manda no grupo.

Institucional