Dino manda PF investigar suspeita de financiamento dos EUA à campanha de Flávio Bolsonaro em troca de terras raras

Fabíola Maria Costa Silva •

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (27) que a Polícia Federal investigue uma possível interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2026. A investigação busca esclarecer se a Rockbridge Network, organização americana fundada pelo atual vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, participou de negociações para financiar a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). Além disso, a decisão determina que os investigadores apurem uma possível relação entre o apoio político e interesses econômicos de agentes estrangeiros nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos. Até o momento, não há comprovação pública de que a organização tenha financiado a candidatura.

Grupo ligado ao vice-presidente dos EUA entra na investigação

A Rockbridge Network surgiu em 2019, por iniciativa de JD Vance e do empresário Chris Buskirk.

A organização reúne investidores e empresários ligados a movimentos conservadores e à política republicana nos Estados Unidos.

Agora, a Polícia Federal deverá investigar possíveis contatos entre representantes da rede americana e os empresários brasileiros Tallis Gomes e Pedro Sang.

Na decisão, Dino determinou que os investigadores esclareçam “a natureza das tratativas noticiadas entre representantes da Rockbridge Network e os Srs. Tallis Gomes e Pedro Sang, inclusive eventual vínculo entre recursos, serviços ou outras vantagens economicamente aferíveis e campanha eleitoral”.

Pedro Sang confirmou anteriormente sua ligação com a organização, mas negou atuar como intermediário de recursos financeiros destinados à campanha de Flávio Bolsonaro.

Já Tallis Gomes, um dos fundadores da Easy Taxi e do G4 Educação, confirmou integrar a Rockbridge Network. Entretanto, afirmou que não possui cargo de direção ou representação da entidade e negou participação ou doações à campanha presidencial.

Terras raras brasileiras também são alvo da apuração

Outro ponto da investigação envolve possíveis interesses estrangeiros nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos.

Esses recursos possuem importância estratégica para setores como tecnologia, indústria e produção de equipamentos eletrônicos.

A suspeita ganhou destaque após a divulgação de um documento chamado “Prosperity Partnership”, que apresentava uma proposta de aproximação entre um eventual governo Flávio Bolsonaro e os Estados Unidos.

O material mencionava uma possível parceria envolvendo minerais críticos e terras raras, com o objetivo de reduzir a dependência americana da China.

O autor do documento, André Marinho, confirmou que elaborou o estudo, mas afirmou que se tratava de uma análise hipotética, produzida por iniciativa própria.

Ele também negou ter encaminhado o material à campanha de Flávio ou a autoridades americanas.

Na decisão, Dino destacou a necessidade de investigar a possível ligação entre apoio eleitoral e interesses econômicos.

“Sublinho, ainda, a necessidade de esclarecer o possível vínculo entre apoio eleitoral e o interesse econômico de agentes estrangeiros nas terras raras e nos minerais críticos brasileiros”, escreveu o ministro.

Polícia Federal investigará anúncios pagos nas redes sociais

A determinação também inclui a apuração de publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros.

A Polícia Federal deverá identificar quem contratou e financiou esses anúncios, além de verificar a eventual participação de pessoas ou empresas brasileiras.

Entre os conteúdos mencionados estão publicações com projeções favoráveis a Flávio Bolsonaro, baseadas em dados da plataforma de previsões Polymarket.

Outra frente da investigação envolve a possível manipulação de algoritmos de plataformas digitais para favorecer ou prejudicar candidaturas.

A decisão menciona um experimento realizado por uma organização não governamental no qual uma conta recém-criada recebeu 74% de sugestões de conteúdos favoráveis a Flávio e 18% favoráveis a Lula.

Entretanto, esses dados, isoladamente, não comprovam manipulação deliberada. A investigação deverá avaliar se existem elementos que sustentem essa suspeita.

STF determina investigação imediata e comunica órgãos federais

Flávio Dino determinou que a Polícia Federal abra um inquérito e informe ao Supremo o número do procedimento.

A investigação ficará sob supervisão do STF diante da possibilidade de envolvimento de integrantes do Congresso Nacional. A decisão, porém, não identifica quais parlamentares poderiam estar relacionados aos fatos.

Além disso, o ministro comunicou a determinação a diferentes órgãos federais, incluindo a Receita Federal, o Banco Central, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

A Procuradoria-Geral da República também recebeu a comunicação.

A legislação eleitoral brasileira proíbe que partidos e candidatos recebam financiamento de entidades ou governos estrangeiros, inclusive por meio de vantagens com valor econômico.

Até a divulgação da decisão, não havia prova pública de transferência de recursos da Rockbridge Network para a campanha de Flávio Bolsonaro.

O senador ainda não havia se manifestado sobre a nova determinação judicial. A abertura do inquérito representa o início da apuração e não estabelece, por si só, a responsabilidade das pessoas e organizações mencionadas.

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