Vídeo: Campeão nacional, barista cuiabano vai em busca de título mundial

Perrengue Mato Grosso

O empresário Rubens Vuolo Neto participará do campeonato em abril de 2024, nos Estados Unidos

Há três anos o cuiabano Rubens Vuolo Neto decidiu entrar de cabeça no mundo do barismo. Após descobrir sua paixão pelos cafés especiais, ele deixou para trás seu cargo de assessor no Tribunal de Justiça, e toda a dedicação como barista lhe consagrou campeão nacional e embaixador do café brasileiro.

Foi no Campeonato Brasileiro de Brewers, ocorrido neste mês de outubro, em Curitiba, que Rubens conquistou o mais alto degrau do pódio na categoria café filtrado/coado com a apresentação de um blend floral frutado. Em 2022, ele já havia sido premiado com a medalha de bronze na mesma divisão.

“Neste ano preferi focar novamente nessa categoria, que é para baristas de quem prepara o melhor café, e acabei sendo campeão. Eu escolhi trabalhar com um blend de dois cafés misturados, o Laurina da Fazenda da Terra, lá do cerrado mineiro, e o Bourbon rosa, da Fazenda Um, que é do sul de Minas”, explicou.

“O Laurina é conhecido no mundo do barismo como uma espécie rara de café, que naturalmente não tem quase nada de cafeína. É um floral com muita acidez, e o Bourbon é um frutado doce”.

Rubens contou que na final teve dez minutos para se apresentar aos jurados, que avaliaram uma composição de elementos, como conhecimento técnico, hospitalidade, comunicação, limpeza e organização.

Rubens durante apresentação no Campeonato Brasileiro de Brewers, em Curitiba

“Não é somente fazer um café incrível, mas explicar isso para o cliente, envolver ele de uma maneira que a apresentação seja interessante. Eles avaliam todas as valências que um barista precisa ter”.

Para sua perfomance, ele escolheu o tema “comunicação com o consumidor”, por meio do qual explicou, em termos mais leigos, toda a técnica utilizada para preparar seu produto.

“Como os juízes escolhem também quem vai ser o embaixador do café brasileiro no mundo, a gente aproveita os dez minutos para, enquanto repassar alguma mensagem, algo que a gente acredita para o cenário”.

“A minha ideia era levantar a bandeira de que para a gente fazer a experiência do consumidor ser melhor e aproximar ele da gente, temos que usar linguagens mais simples. Eu usava um termo super técnico e depois explicava, de forma simples, o efeito prático para o consumidor entender porque estava fazendo daquela forma”.

Assim, Rubens, que era o único mato-grossense, triunfou em cada fase do campeonato, que começou com 20 baristas, e levou para casa o tão sonhado troféu e o título de embaixador brasileiro. “Dos 10 melhores, só tinha gente do Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, todos do sudeste. Fiquei muito orgulhoso”, contou.

O mundial

Agora, o barista se prepara para enfrentar o campeonato mundial na mesma categoria, que acontecerá em abril de 2024, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos. Rubens disse que já está em busca de cafés, e já tem visitas marcadas em plantios no Brasil e no Panamá para tentar encontrar o melhor produto. 

Além disso, ele também tem se preparado com aulas particulares de inglês, uma vez que a comunicação fluída é um quesito extremamente importante na hora da apresentação aos jurados.

“Vou descobrir até onde eu posso chegar nos treinos, quando já tiver o café em mãos. Mas pode ter certeza que dedicação não irá faltar. Estou me organizando para fazer treinamento em São Paulo, e realmente quero focar os próximos seis meses que eu tenho inteiramente para isso”.

“Ainda não sei qual café irei levar, porque a gente está na troca de safra. Os cafés que eu vou poder usar no ano que vem ainda estão sendo finalizados pelos produtores. Se eu levar café brasileiro, terei incentivo fiananceiro da organização nacional, só que a minha intenção é chegar o mais alto possível que eu conseguir”.

“Se eu achar que o melhor café que consegui encontrar for brasileiro, é o melhor dos mundos. Mas se por um acaso eu encontrar um de outro país, estou disposto a usá-lo, porque estou representando a classe dos baristas também. Então vou tentar chegar com a melhor munição que eu tiver”.

Rubens disse que já tem em mente alguns países dos quais devem sair oponentes fortes. Ele citou que geralmente países da Europa entregam baristas muitos bons, assim como a Coréia e Canadá.

“Por mais que eu ainda não saiba quem serão os meus adversários, sei que esses mercadores geralmente entregam baristas muito competentes. Também acompanhei a apresentação de um barista do Equador que foi o campeão”.

“Inclusive ele tem o mesmo treinador que eu. Possivelmente a gente vai ter um treinamento em conjunto, um tentando ajudar o outro, e pelo que eu sei ele é muito bom também”.

A paixão pelos cafés especiais e a Amado Grão

Surpreendentemente, Rubens contou que nunca tinha sido um grande fã de café. Segundo ele, seu interesse foi aflorado por sua mãe, a pedagoga Vanessa Vilá de Arruda, que há nove anos decidiu se especializar no meio, e com quem hoje divide sociedade na cafeteria Amado Grão, localizada na Praça Popular.

Ele lembrou que a primeira vez que provou um café especial, trazido por sua mãe de São Paulo, onde ela fazia um curso, foi que despertou algo diferente no seu trato sensorial.

“Para ser sincero, não lembro de onde era o café. Eu lembro que foi que minha mãe fez na cozinha dela, e comprou esse café em São Paulo. Ela falava: ‘Filho, prova! Aquilo que você reclama do café ser amargo, esse aqui é doce’. E essa foi a primeira oportunidade que dei para o café especial”.

“Quando provei, a primeira coisa que me chamou atenção, foi dele não ser amargo e ser doce. Eu não entendia de notas, não tinha nada dessas referências. Eu lembro de ser marcante para mim, porque era fácil de beber, doce e redondo. Foi essa a sensação”.

No início da Amado Grão, que foi aberta em 2018, Rubens ainda não era sócio, mas dividia seu tempo entre o trabalho de assessor no TJ e em auxiliar sua mãe com a cafeteria no tempo livre. Porém, a medida que os anos se passavam, ele percebeu que seu futuro com o café estava traçado de uma maneira incontestável.

Assim, decidido a mudar toda sua vida, ele deixou o cargo público em 2020, e nesses três anos focou em se profissionalizar como barista, torrefador, analista sensorial e extrator de filtrados. 

“Hoje eu sou considerado profissional pela SCA [Specialty Coffee Association]. Eu só não me profissionalizei em produção de café, que é para quem mexe com plantação. No mais, fiz todos os cursos com certificação internacional, que é a mais importante associação do mundo da categoria”.

Toda essa especialização lhe rendeu um paladar afiado, e hoje seus tipos preferidos de café são, como ele mesmo disse, “os mais complexos possíveis”. 

“Eu adoro a experiência. Então, quanto mais o café tem uma explosão de sabores, quanto mais ele consegue me trazer informações diferentes, mais eu gosto. Até por isso eu trabalhei um blend na competição”.

“Um café era muito frutado e um muito floral. Um deles tinha muita acidez, e o outro era muito doce. Eu acredito que é como um prato de assinatura de um chef. O barista tem o trabalho de deixar uma explosão de sabores equilibrada, contar uma história pelo café. Você bebe e tem que parar para pensar, analisar cada detalhe”. 

A notícia dos títulos já tem tido repercussão e movimentado ainda mais a cafeteria e a busca por cursos, que também são ministrados pela empresa. Segundo ele, a Amado Grão oferece desde cursos simples, para fazer café em casa, até mais aprimorados, como o de barista.

“Os clientes habituais fizeram questão de vir nessa semana que passou para me cumprimentar, prestigiar, e com certeza já tem aparecido pessoas novas. A procura por curso e para provar o café do campeonato tem sido muito grande, assim como a compra de pacote de café. Está sendo muito legal”. 

Via Mídia News

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