Documentos internos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revelam que 70% das entidades que firmaram Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) para realizar descontos em aposentadorias contrataram operadores investigados pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Além disso, as investigações apontam que 27 das 40 entidades envolvidas contrataram empresas pertencentes a seus próprios dirigentes, utilizaram assinaturas duvidosas e concederam procurações a lobistas ligados ao esquema conhecido como “Farra do INSS”. Essa rede de irregularidades demonstra, portanto, a profundidade e a complexidade do caso, que segue em apuração.
Lobista “Careca do INSS” aparece em diversos acordos
O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, popularmente chamado de “Careca do INSS”, aparece em pelo menos sete processos de formalização de ACTs. Ele enviou e-mails, assinou procurações e apresentou pedidos diretamente à Diretoria de Benefícios do INSS, o que reforça sua influência nos bastidores do órgão. Em um dos casos mais emblemáticos, Antunes utilizou uma procuração assinada por Maria Inês Batista de Almeida, ex-presidente da Ambec, que chegou a faturar R$ 500 milhões em descontos sobre aposentadorias entre 2021 e 2024.
Além disso, Maria Inês trabalhava para a empresa Prevident, de propriedade de Maurício Camisotti, apontado pela PF como um dos principais beneficiários do esquema. Camisotti foi preso no mês passado ao lado de Antunes. Durante depoimento à CPMI do INSS, o lobista afirmou que nunca manteve contato com dirigentes das associações Ambec, Cebap e Unsbras, mas confirmou que tratava diretamente com Camisotti, a quem descreveu como “representante” dessas entidades. Ainda durante a pandemia, Antunes pediu que o INSS aceitasse filiações com assinaturas digitais, o que, consequentemente, facilitou a inserção de documentos falsos nos sistemas da autarquia.
Advogada recebeu milhões de entidades suspeitas
Outra personagem que aparece com frequência nos documentos é a advogada Cecília Rodrigues Motta. Contratos firmados por entidades como Cenap Asa, Keeper e AAPEN mencionam o nome dela como prestadora de serviços jurídicos. Em novembro de 2024, Cecília participou de uma reunião por videoconferência com representantes da Diretoria de Benefícios do INSS, o que indica sua atuação direta nas negociações.
Segundo a Polícia Federal, o escritório da advogada recebeu cerca de R$ 14 milhões de entidades investigadas. Além disso, ela repassou R$ 630 mil a empresas da esposa do ex-procurador-geral do INSS Virgílio de Oliveira Filho e R$ 520 mil ao filho do ex-diretor de Benefícios, André Fidelis. Esses valores reforçam a suspeita de um sistema bem articulado de repasses internos, que envolvia tanto operadores privados quanto servidores públicos de alto escalão.
Operação “Sem Desconto” detalha fraudes bilionárias
A Polícia Federal e a CGU deflagraram em abril de 2025 a Operação Sem Desconto, que apura o desvio de valores de aposentadorias e pensões por meio dos ACTs fraudulentos. Durante a operação, as autoridades cumpriram 211 mandados de busca e apreensão, além de seis prisões temporárias. Conforme o relatório da CGU, o prejuízo causado aos aposentados atinge R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
De acordo com os dados levantados, 97% dos beneficiários afirmaram não ter autorizado os descontos em folha. Além disso, a CGU constatou que 70% das entidades auditadas não apresentaram os documentos necessários para justificar a legalidade dos acordos. O órgão ainda conduz oito investigações internas contra servidores suspeitos de envolvimento. O ministro da CGU informou que recomendou o bloqueio imediato dos ACTs irregulares, embora tenha ressaltado que o órgão não possui poder legal para suspender diretamente contratos de entidades privadas.
Com o avanço das investigações, o escândalo conhecido como “Farra do INSS” expõe não apenas a fragilidade dos mecanismos de controle do sistema previdenciário, mas também a facilidade com que redes de lobby e corrupção conseguiram se infiltrar em estruturas públicas.
Perguntas frequentes
Quarenta entidades assinaram ou renovaram acordos para efetuar descontos associativos.
Vinte e sete entidades, ou seja, 70% do total, utilizaram operadores sob investigação.
O prejuízo calculado pelas autoridades chega a R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.



