Há 23 anos, um crime brutal despedaçou uma das famílias mais tradicionais de Cuiabá, Mato Grosso. O radialista Rivelino Brunini, de 32 anos, executado com sete tiros em plena luz do dia, e seu amigo Fauze Rachid, que também perdeu a vida na tragédia, marcaram a história de uma geração. O episódio gerou grande repercussão e permanece vivo na memória dos cuiabanos, como uma ferida aberta até hoje.
Naquele dia fatídico, Rivelino e Fauze estavam próximos de casa, mas o destino foi implacável. João Arcanjo Ribeiro, o autor do crime, foi o chefe do crime organizado em Mato Grosso, e sua influência dominava todos que se opusessem a ele.
A dor da viúva: “Fiquei viúva e com dois filhos órfãos”
Dona Ângela, esposa de Rivelino, nunca conseguiu apagar da memória o dia que destruiu sua vida. Ela, que ficou viúva, teve que criar sozinha dois filhos, um com 6 anos e o outro com 11. “Nossa família foi dilacerada. Minha cunhada, que teve coragem de depor, precisou deixar o país e vive fora até hoje, por medo de represálias. Outros parentes mudaram de cidade, de estado, tentando recomeçar a vida longe do terror”, relatou Dona Ângela, com a dor visível em seus olhos.
Ela explicou como a presença de João Arcanjo, o temido chefão do crime, não só destruiu a vida do seu marido, mas também ameaçou a segurança de toda a sua família. “Era uma época de muito medo, e estávamos todos à mercê da violência dele”, acrescentou a viúva.
O perdão de Mychael, o filho mais novo
Mychael, o filho mais novo de Rivelino, cresceu com a tragédia marcada em sua vida. Hoje, como pai de duas meninas, ele conta que entende, mais do que nunca, a dor da ausência de seu pai. “Eu o perdoo. Conheci o amor de Cristo e aprendi o valor do perdão. Perdoei os assassinos do meu pai! Mas confesso: dói. Hoje, como pai, vejo o quanto a presença dele teria sido importante na minha vida”, disse Mychael, com maturidade diante de tanto sofrimento.
Ele também destacou a luta pela justiça, que ainda não se concretizou: “São 23 anos vivendo esse trauma, e a cada recurso, a cada anulação, parece que estamos sendo injustiçados de novo. Peço à Justiça que faça valer a lei, para que possamos descansar em paz.”
O processo judicial: idas e vindas sem fim
O caso de Rivelino Brunini percorreu uma longa trajetória judicial, cheia de idas e vindas. O julgamento só aconteceu 13 anos depois do crime, mas em 2015, um júri popular condenou João Arcanjo Ribeiro a 44 anos de prisão pela execução do radialista. No entanto, o caminho da justiça parecia ser um jogo de empurra.
Apesar das provas robustas, como a confissão do ex-PM Hércules Agostinho, que detalhou como o crime foi encomendado, o processo continuou sendo um jogo de anulação. Em 2019, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) anulou o julgamento, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) reverteu essa decisão, mantendo a condenação. Mesmo com a decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), o caso voltou à tona em 2024, quando o TJMT novamente anulou o julgamento, abrindo caminho para um novo júri.
Essa decisão surpreendeu e revoltou aqueles que acompanharam o caso, pois parecia ignorar a postura firme do STF e do STJ sobre o assunto. A sensação de impunidade se espalhou ainda mais, alimentando o trauma da família Brunini, que, além da dor da perda, se vê confrontada pela ineficiência da Justiça.
Perguntas frequentes
João Arcanjo Ribeiro foi condenado depois que um ex-PM confessou o crime e apresentou provas claras de que ele encomendou a morte de Rivelino Brunini.
Após a morte de Rivelino, a família enfrentou o caos. Parentes se mudaram de cidade ou até do país por medo de represálias, enquanto Dona Ângela ficou viúva e criou seus dois filhos sozinha.
Mychael perdoou os assassinos de seu pai, mostrando como aprendeu o valor do perdão através da fé cristã, mas ainda sente profundamente a dor da ausência de seu pai.
