Uma cena dramática parou o Irã na noite deste sábado (28). Durante um programa ao vivo na TV estatal, um apresentador tentou anunciar a morte do líder supremo Ali Khamenei, mas não conseguiu conter as lágrimas. Ele cobriu o rosto com as mãos, tossiu, pigarreou e tentou retomar a fala por diversas vezes. As imagens mostram um profissional visivelmente abalado, lutando para cumprir seu dever enquanto o país absorvia a notícia que mudaria sua história .
Antes de se emocionar, o apresentador comentava que Khamenei honrou sua missão na Terra e teve uma vida de luta e sofrimento constante. Ainda durante o discurso, ele afirmou que o aiatolá bebeu o “doce néctar do martírio” e se juntou ao Reino Supremo .
A cena comoveu telespectadores e viralizou nas redes sociais. Não foi apenas um âncora que chorou — em outras emissoras estatais, apresentadoras como Maryam Azarchehr, da Press TV, também desabaram ao vivo, alternando lágrimas com promessas de vingança contra os responsáveis pelo ataque .
O “néctar do martírio” e a narrativa sagrada
A expressão usada pelo apresentador não foi escolhida ao acaso. Na teologia xiita, o martírio ocupa um lugar central. Khamenei, que governou o Irã por quase quatro décadas, sempre exaltou a morte em combate como a maior das honras .
Em discursos ao longo dos anos, o próprio aiatolá definia o martírio como um “dom divino” e um “presente que Deus concede àqueles que lutam em Seu caminho” . A ironia é que ele, que tanto exaltou a morte dos outros, encontrou o fim durante a “Operação Fúria Épica”, coordenada por Estados Unidos e Israel.
O ataque atingiu seu complexo em Teerã e matou também sua filha, genro e neto, segundo fontes próximas ao governo iraniano . O Conselho Supremo de Segurança Nacional confirmou que Khamenei estava em seu local de trabalho quando os mísseis atingiram o alvo .
Quatro décadas de poder absoluto
Khamenei assumiu o posto de líder supremo em 1989, após a morte do aiatolá Khomeini. Na época, muitos duvidavam de sua capacidade — ele era um clérigo de baixo escalão, sem a aura religiosa do predecessor .
Ao longo dos anos, porém, ele consolidou um poder absoluto. Controlava as Forças Armadas, o Judiciário, a mídia estatal e as nomeações para todos os cargos-chave do país . Sob seu comando, o Irã expandiu influência no Oriente Médio, financiando grupos como Hamas e Hezbollah e intervindo militarmente na Síria e no Iraque .
Mas o preço interno foi alto. Khamenei reprimiu com mão de ferro todas as revoltas populares — desde os protestos de 2009 contra a reeleição de Ahmadinejad até os levantes de 2022, após a morte de Mahsa Amini, e as manifestações de janeiro de 2026, que terminaram com milhares de mortos .
O futuro incerto do Irã
Com a morte de Khamenei, o Irã entra em território desconhecido. O governo declarou luto nacional de 40 dias e paralisou atividades públicas por sete dias . A Guarda Revolucionária prometeu vingança, mas o país enfrenta um problema grave: não há um sucessor claro .
A constituição iraniana prevê que um conselho de clérigos escolha o novo líder, mas analistas acreditam que, em tempos de guerra, o poder pode passar temporariamente para um comitê ou diretamente para a Guarda Revolucionária . Qualquer movimento pode desencadear disputas internas sangrentas em um país de 85 milhões de habitantes, armado até os dentes e com programas nucleares avançados .
Enquanto isso, nas ruas de Teerã, uma parte da população celebra. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram iranianos dançando e gritando “morte ao ditador” — os mesmos gritos que ecoaram nos protestos de janeiro, quando mais de 7 mil manifestantes morreram nas mãos das forças de segurança .
O apresentador que chorou ao vivo representa um Irã que se despede de seu líder. Mas outro Irã, o que sempre foi silenciado, começa a se fazer ouvir.
Por que o apresentador da TV estatal chorou ao anunciar a morte de Khamenei?
O apresentador demonstrou emoção genuína ao vivo, possivelmente por identificação pessoal com a figura do líder supremo, que ocupava o cargo há 36 anos e era visto por muitos iranianos como uma autoridade religiosa e política incontestável. A cena reflete o impacto emocional da notícia sobre parte da população .
O que significa “beber o néctar do martírio” na cultura iraniana?
A expressão faz parte da teologia xiita, que considera o martírio a maior honra que um crente pode alcançar. Khamenei frequentemente discursava sobre o tema, afirmando que morrer pela causa de Deus é um “dom divino” e que os mártires ocupam posição superior à dos anjos .
Khamenei morreu sozinho durante o ataque?
Não. Fontes próximas ao governo iraniano confirmaram que a filha, o genro e um neto do aiatolá também morreram no ataque ao complexo onde ele trabalhava. A informação foi divulgada por veículos ligados ao regime .








