Kawan Vinnicyus Soares dos Santos, de 21 anos, corredor de rua e apaixonado por esportes, viu sua vida mudar completamente em 14 de novembro de 2025. Um caminhão invadiu a preferencial e colidiu brutalmente com sua moto enquanto ele seguia para o trabalho. O impacto perfurou seus dois pulmões e rompeu completamente sua coluna entre as vértebras T8 e T9. Na última quinta-feira (26), Kawan tornou-se o primeiro mato-grossense a receber a polilaminina, a substância brasileira que devolve esperança a pacientes paraplégicos em todo o país.
A polilaminina é uma versão “melhorada” da laminina, proteína que nosso corpo produz naturalmente. A substância funciona como um trilho para o crescimento dos neurônios. A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, descobriu o composto após quase três décadas de estudos. A proteína tem formato de cruz, o que lhe rendeu o apelido de “proteína de Deus” nas redes sociais.
Kawan é o 28º brasileiro a receber o composto experimental. Neurocirurgiões vindos especialmente do Rio de Janeiro realizaram o procedimento no Hospital Regional de Rondonópolis.
O atleta que não desistiu
Antes do acidente, Kawan corria nas ruas todos os dias. “Ele não bebia, não fumava, tinha uma saúde muito boa”, conta a madrasta, Ana Alice Soares dos Santos. Essa determinação de atleta o levou a lutar pelo tratamento.
A família enfrentou uma verdadeira via-crúcis nos primeiros meses. Kawan recebeu alta da UTI e foi para casa sem cadeira de rodas ou cadeira de banho. O primeiro pedido para participar da pesquisa chegou negado, pois o protocolo inicial previa pacientes com até 72 horas de lesão. Kawan já estava há meses paraplégico.
Ele persistiu. Com ajuda do pai, Ailton, e da madrasta, Kawan conseguiu um laudo com o neurocirurgião Gabriel Chaves. O médico se dispôs a acompanhar o caso. A documentação chegou à equipe da pesquisadora Tatiana Sampaio, que autorizou o procedimento.
Hoje, Kawan celebra. “Estou contente, alegre e muito feliz por essa honra que Deus me concedeu. Agora é esperar e, se Deus permitir, voltar a recuperar o movimento das pernas”, diz o jovem.
A ciência por trás da esperança
A comunidade científica pede cautela com o entusiasmo. A polilaminina ainda não é um medicamento aprovado. Ela está na fase 1 de testes clínicos, que avalia apenas a segurança da substância em humanos. Para chegar ao mercado, precisa passar por mais duas fases de estudos. Esse processo pode levar de cinco a dez anos.
Os resultados iniciais, porém, impressionam. Um estudo acadêmico com oito pacientes de lesão completa mostrou que 75% recuperaram alguma função motora. A literatura médica aponta que apenas 10% costumam apresentar melhora espontânea.
Casos como o de Diogo Brollo alimentam a esperança de centenas de famílias. Ele caiu de um prédio e hoje controla a própria bexiga e faz movimentos de joelhada.
A corrida pela vida na Justiça
Até o momento, 56 pacientes entraram na Justiça para ter acesso à polilaminina. Desses, 33 já receberam autorização. A Anvisa permite o chamado “uso compassivo” quando não existem alternativas de tratamento. Essa permissão baseia-se na compaixão, mas não substitui o rigor científico.
Especialistas alertam para os riscos dessa judicialização. “O hype é desproporcional ao volume de evidência”, afirma Leonardo Costa, pesquisador do CNPq. Sem grupos de controle nos estudos, não é possível distinguir se a melhora vem da polilaminina ou da recuperação natural do corpo.
O tempo também é crucial. Para funcionar, a substância deve chegar preferencialmente em até três dias após o trauma. Esse prazo impede a formação da cicatriz que bloqueia os axônios.
Kawan está na fase subaguda da lesão e entrou na pesquisa justamente por isso. Em 29 de abril, ele se interna no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, referência em reabilitação. Lá, iniciará a fisioterapia intensiva.
“Sou muito grato a todos que participaram desse processo, em especial à doutora Tatiana e sua equipe. Agora é esperar que tudo venha dar certo”, conclui o jovem, que já inspira outras famílias na mesma situação.
Quantas pessoas já receberam a polilaminina no Brasil?
Até agora, 33 pacientes obtiveram autorização judicial para receber o tratamento em caráter de “uso compassivo”. Kawan é o 28º brasileiro a passar pelo procedimento.
Por que chamam a polilaminina de “proteína de Deus”?
A substância forma uma cruz quando observada em laboratório, o que gerou o apelido nas redes sociais. A pesquisadora Tatiana Sampaio prefere manter o foco na ciência: a proteína é uma versão polimerizada da laminina, que nosso corpo produz naturalmente.
Qual a diferença entre a polilaminina e a fosfoetanolamina?
A polilaminina tem quase 30 anos de pesquisa por trás, com estudos em ratos, cães e humanos publicados em revistas científicas. Ela está na fase 1 de testes autorizados pela Anvisa. A fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”, nunca passou por testes clínicos controlados.






